sexta-feira, 27 de março de 2009
Melodia Abstracta
Em ausência da dicotomia irrequieta da mente, fluindo em ténue sentimento de imortalidade, vasto como o halo delicado do incorpóreo, um som esbate-se na planície sem linha do horizonte, divagando multicolor por onde as vozes nada pretendem significar e o aroma da intuição glutina ao sítio inexistente. O ambiente incógnito avassala terno a minha dormência e numa biocenose paradisíaca, tudo se funde na harmonia fosforescente do impacto musical. Uma vibração líquida escorre pela sombra nuclear, e nada mais há para além da minha dança sideral e o deleite da percepção desta melodia abstracta. Espasmos pictóricos aleatoriamente cortando contrastes. Uma névoa deixa-se do espaço curvilíneo. Translúcidos palácios de cristal com brilhos míticos exaltados ao deslumbre num reino sobrenatural do indizível.
Abertura Mental
NOTA: termos não tão simplistas são utilizados como se de simplistas se tratassem no intuito da boa compreensão.
Perguntem a quem quer que seja, se tem uma mentalidade aberta. Quase todos dizem que sim. Ficamos com a sensação que estamos a perguntar: És ocidental, tens inteligência e bebes café para acordar?
Associamos as novas ideias a outras preexistentes, como um puzzle sem limites, adaptando a nova peça a outras já estabelecidas. Quando aparece uma peça estranha que nada parece ter a ver com o nosso puzzle, vai para o lixo. Mas se a peça reaparece, a pessoa observa-a já não tão estranha e com um bocadinho mais de intenção, talvez encaixe no seu puzzle. O mais difícil é assumir as que já encaixamos estar erradas. Quando temos um conceito formado a priori, este teima em não mudar. É quase matemática: temos ideias do tipo A e se aparece outra completamente diferente do tipo A, caso fatal, não é assimilada. Um bom exemplo é a história bizarra de que a Terra é redonda. Em criança estamos definitivamente abertos. Somos uma esponja gigante desprovida de julgamentos. Que venha tudo! O Pai Natal vive no pólo norte? Boa! O Pai apenas está a lavar a pilinha muito rápido? Boa!
Quando as borbulhas começam a desaparecer, ocorre num tempo não muito distante o perigo de alguém se tornar num filisteu. O filisteu congelou os seus conceitos perante a vida e para estes se alterarem tem de irromper um furacão invertido com uma cor nova e a berrar: Sou uma coisa nova! Não me vês?! Pode não ser o suficiente, mas se o furacão começar a dirigir-se na sua direcção, aí já há mais probabilidades de lhe prestar atenção. Mas, caso corrente, o filisteu tem uma mente fechada, que frequentemente vive o mesmo filme até enjoar de pipocas.
Estamos a falar de acolher ideias novas. As ideias têm um carácter volátil, no sentido de existir uma certa elasticidade argumentativa capaz de as alterar, consoante também a disponibilidade emocional e o distanciamento sendo difícil identificar a mente, a um armazenador frio de factos. Já a capacidade de acolher “experiências” novas, é um assunto mais melindroso. Entendo aqui, reforçado pela nota inicial, experiência equivaler à totalidade de “fenómenos subjectivos” perante um “acontecimento exterior”, delimitando as variantes para o que aqui importa: a experiência da rotina.
Vamos dizer deste modo:
A realidade está em constante mutação, o que há em nós que torna isso parcialmente verdade? O que não nos permite assimilar a sempre renovável realidade, são os padrões de memória. Mesmo presos num poço durante semanas ele só é a mesma situação pela “marca” repetitiva da memória. Mas saindo do poço para a multidão onde tudo é mais claro. É como ter um curso em arte clássica e tentar perceber um quadro moderno, baseado na bagagem clássica. Para exponencial a absorção de experiências, temos de estar entregues ao momento presente, ao aqui e agora. Estar no presente tempo suficiente para a mente não recorrer à memória ou a projecções futuras é algo precioso que guardo no meu percurso de vida…onde está o medo? Bem, num outro artigo. Este é dedicado à capacidade de acolher ideias novas. A mentalidade aberta no sentido mais badalado.
O café deveria ter alguma substância que realmente acordasse. É que não me parece (e aqui estaremos em sintonia) viver numa comunidade aberta. Onde estão eles? Um por um pergunto e todos afirmam:
“Não, eu tenho uma mentalidade aberta, sim”.
Este assunto é importante, pois se a pessoa está fechada nem mesmo o paraíso poderá lá entrar. Insisto: uma ideia pode mudar uma vida. Só o simples prazer de participar no acto criativo da vida, a capacidade de se surpreender, seria já motivo relevante para estar num espírito de receptividade. O filósofo é assim, vive num encanto de descobrir novas ideias. Reafirmo, falamos apenas de ideias e a capacidade de pluralidade de perspectivas.
O sentimento associado ao que uma ideia desperta é relevante na nossa compreensão e tolerância à mesma. As ideias de Hitler são para a maioria das pessoas, predominantemente asquerosas (emocional), e secundariamente“erradas” (racional). A sensação mais lúcida é a placidez. Quando me encontro insolitamente calmo aproveito para reflectir mas isso não garante uma mentalidade aberta. É uma sensibilidade que não está contraída mas predisposta para o desconhecido.Basta olhar para dentro de nós e ter uma certa noção de tudo o que evitamos. Há coisas dentro de nós que simplesmente não queremos ver. Podemos não aceitar, podemos não as compreender.O inicio é em reconhecer que lá está, o que já é uma espécie de aceitação. Isto se olharmos para nós, depois há todos os extraterrestres. Alguns dizem que devíamos aceitar tudo porque não há certo ou errado estanques…
Perguntem a quem quer que seja, se tem uma mentalidade aberta. Quase todos dizem que sim. Ficamos com a sensação que estamos a perguntar: És ocidental, tens inteligência e bebes café para acordar?
Associamos as novas ideias a outras preexistentes, como um puzzle sem limites, adaptando a nova peça a outras já estabelecidas. Quando aparece uma peça estranha que nada parece ter a ver com o nosso puzzle, vai para o lixo. Mas se a peça reaparece, a pessoa observa-a já não tão estranha e com um bocadinho mais de intenção, talvez encaixe no seu puzzle. O mais difícil é assumir as que já encaixamos estar erradas. Quando temos um conceito formado a priori, este teima em não mudar. É quase matemática: temos ideias do tipo A e se aparece outra completamente diferente do tipo A, caso fatal, não é assimilada. Um bom exemplo é a história bizarra de que a Terra é redonda. Em criança estamos definitivamente abertos. Somos uma esponja gigante desprovida de julgamentos. Que venha tudo! O Pai Natal vive no pólo norte? Boa! O Pai apenas está a lavar a pilinha muito rápido? Boa!
Quando as borbulhas começam a desaparecer, ocorre num tempo não muito distante o perigo de alguém se tornar num filisteu. O filisteu congelou os seus conceitos perante a vida e para estes se alterarem tem de irromper um furacão invertido com uma cor nova e a berrar: Sou uma coisa nova! Não me vês?! Pode não ser o suficiente, mas se o furacão começar a dirigir-se na sua direcção, aí já há mais probabilidades de lhe prestar atenção. Mas, caso corrente, o filisteu tem uma mente fechada, que frequentemente vive o mesmo filme até enjoar de pipocas.
Estamos a falar de acolher ideias novas. As ideias têm um carácter volátil, no sentido de existir uma certa elasticidade argumentativa capaz de as alterar, consoante também a disponibilidade emocional e o distanciamento sendo difícil identificar a mente, a um armazenador frio de factos. Já a capacidade de acolher “experiências” novas, é um assunto mais melindroso. Entendo aqui, reforçado pela nota inicial, experiência equivaler à totalidade de “fenómenos subjectivos” perante um “acontecimento exterior”, delimitando as variantes para o que aqui importa: a experiência da rotina.
Vamos dizer deste modo:
A realidade está em constante mutação, o que há em nós que torna isso parcialmente verdade? O que não nos permite assimilar a sempre renovável realidade, são os padrões de memória. Mesmo presos num poço durante semanas ele só é a mesma situação pela “marca” repetitiva da memória. Mas saindo do poço para a multidão onde tudo é mais claro. É como ter um curso em arte clássica e tentar perceber um quadro moderno, baseado na bagagem clássica. Para exponencial a absorção de experiências, temos de estar entregues ao momento presente, ao aqui e agora. Estar no presente tempo suficiente para a mente não recorrer à memória ou a projecções futuras é algo precioso que guardo no meu percurso de vida…onde está o medo? Bem, num outro artigo. Este é dedicado à capacidade de acolher ideias novas. A mentalidade aberta no sentido mais badalado.
O café deveria ter alguma substância que realmente acordasse. É que não me parece (e aqui estaremos em sintonia) viver numa comunidade aberta. Onde estão eles? Um por um pergunto e todos afirmam:
“Não, eu tenho uma mentalidade aberta, sim”.
Este assunto é importante, pois se a pessoa está fechada nem mesmo o paraíso poderá lá entrar. Insisto: uma ideia pode mudar uma vida. Só o simples prazer de participar no acto criativo da vida, a capacidade de se surpreender, seria já motivo relevante para estar num espírito de receptividade. O filósofo é assim, vive num encanto de descobrir novas ideias. Reafirmo, falamos apenas de ideias e a capacidade de pluralidade de perspectivas.
O sentimento associado ao que uma ideia desperta é relevante na nossa compreensão e tolerância à mesma. As ideias de Hitler são para a maioria das pessoas, predominantemente asquerosas (emocional), e secundariamente“erradas” (racional). A sensação mais lúcida é a placidez. Quando me encontro insolitamente calmo aproveito para reflectir mas isso não garante uma mentalidade aberta. É uma sensibilidade que não está contraída mas predisposta para o desconhecido.Basta olhar para dentro de nós e ter uma certa noção de tudo o que evitamos. Há coisas dentro de nós que simplesmente não queremos ver. Podemos não aceitar, podemos não as compreender.O inicio é em reconhecer que lá está, o que já é uma espécie de aceitação. Isto se olharmos para nós, depois há todos os extraterrestres. Alguns dizem que devíamos aceitar tudo porque não há certo ou errado estanques…
quarta-feira, 25 de março de 2009
O Grotesco
Havia a centelha visceral devorando ávida tudo o que separa.
As pupilas dos seus olhos dilatam-se, na noite madura de quarto crescente fusco que finalmente nos deixa a sós. Eu próprio devia demonstrar tal, estava expansivo no arder transcendental do meu desejo. Ela dilacera num movimento hábil a sua maquilhagem e despe a sua camisa de veludo.
Diz que é uma calamidade nas suas crenças surpreendidas, mas que voltou a confiar nas pessoas porque me conheceu. O seu semblante imperfeitamente borrado empalidece de expressão. Pega na lâmina tosca e rasga a pele abdominal num eco viscoso. As entranhas fedem para cima da mesa de madeira velha que absorve num crepitar o vermelhão escuro do seu sangue. Olha-me em sensível expectativa.
- Não tenho asco de ti…sabes o que isso significa? – e retiro da sua mão a faca ensanguentada com delicadeza, fito-a por um momento intemporal, até que irrompe um sorriso disforme e me diz pausadamente:
- Fá-lo. Confia. Abre-te.
Lentamente rasgo também o meu corpo, numa sensação morna de arrepio, vejo as minhas entranhas rolarem para a mesa. Os fluidos intestinais misturam-se num abraço consagrado de íntimo significado. Embebidos na aceitação em comunhão devota, o bafo misterioso do grotesco, ali, diante de nós, tornado renascença.
As pupilas dos seus olhos dilatam-se, na noite madura de quarto crescente fusco que finalmente nos deixa a sós. Eu próprio devia demonstrar tal, estava expansivo no arder transcendental do meu desejo. Ela dilacera num movimento hábil a sua maquilhagem e despe a sua camisa de veludo.
Diz que é uma calamidade nas suas crenças surpreendidas, mas que voltou a confiar nas pessoas porque me conheceu. O seu semblante imperfeitamente borrado empalidece de expressão. Pega na lâmina tosca e rasga a pele abdominal num eco viscoso. As entranhas fedem para cima da mesa de madeira velha que absorve num crepitar o vermelhão escuro do seu sangue. Olha-me em sensível expectativa.
- Não tenho asco de ti…sabes o que isso significa? – e retiro da sua mão a faca ensanguentada com delicadeza, fito-a por um momento intemporal, até que irrompe um sorriso disforme e me diz pausadamente:
- Fá-lo. Confia. Abre-te.
Lentamente rasgo também o meu corpo, numa sensação morna de arrepio, vejo as minhas entranhas rolarem para a mesa. Os fluidos intestinais misturam-se num abraço consagrado de íntimo significado. Embebidos na aceitação em comunhão devota, o bafo misterioso do grotesco, ali, diante de nós, tornado renascença.
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